Durante muito tempo, acreditava-se que as doenças cardiovasculares (DCVs) estavam ligadas apenas a fatores como colesterol alto, pressão elevada e sedentarismo. Embora esses fatores realmente sejam importantes, os estudos mais recentes mostram que existe um vilão mais silencioso por trás de muitos desses processos: a inflamação crônica.
O que é inflamação?
A inflamação é uma resposta natural do corpo a uma agressão — como uma infecção ou uma lesão. O problema começa quando essa resposta inflamatória se mantém ativa por muito tempo, mesmo sem uma ameaça real. Isso é o que chamamos de inflamação crônica de baixo grau. Ela pode ser desencadeada por maus hábitos alimentares, obesidade, estresse, tabagismo e até por distúrbios do sono.
Como ela se liga ao coração?
A principal ponte entre a inflamação e as doenças do coração é a aterosclerose — aquele processo em que as artérias vão se entupindo com placas de gordura. O que muitos não sabem é que esse acúmulo de gordura nas artérias é acompanhado por um processo inflamatório. As células do sistema imune percebem o acúmulo de colesterol como um “corpo estranho” e começam a liberar substâncias inflamatórias que, com o tempo, tornam as placas instáveis e mais propensas a romper, podendo causar infarto ou AVC.
Inclusive, estudos como o CANTOS (Ridker et al., 2017) mostraram que bloquear apenas a inflamação, sem nem tocar no colesterol, já reduziu a incidência de eventos cardiovasculares. Isso foi feito com um medicamento chamado canaquinumabe, que inibe a interleucina-1β, uma molécula envolvida na inflamação.
Outro estudo importante, o COLCOT (Tardif et al., 2019), usou a colchicina — um anti-inflamatório tradicionalmente usado para gota — e também viu redução de infartos em pacientes com doença arterial coronariana.
E os marcadores?
Hoje, sabemos que moléculas como a proteína C reativa ultrassensível (PCR-us) são fortes preditores de risco cardiovascular. Quanto mais alta a PCR, maior o risco — mesmo que os níveis de colesterol estejam normais. Isso mostra como a inflamação silenciosa pode estar agindo nos bastidores.
Como prevenir?
A boa notícia é que dá pra agir contra essa inflamação.
Comer bem (principalmente alimentos com efeito anti-inflamatório, como peixes ricos em ômega-3, frutas, vegetais e azeite), praticar atividade física regular, dormir bem, parar de fumar e controlar o estresse são atitudes que ajudam muito.
Além disso, algumas medicações usadas no dia a dia, como as estatinas, que normalmente são vistas apenas como redutoras de colesterol, também têm efeitos anti-inflamatórios. Ou seja, cuidar do coração vai muito além de números nos exames de sangue.


